Cara ou Coroa

Qual é o nome da mulher que aparece nas cédulas de real?

Felipe Branco Cruz

05/12/2017 07h43

A dúvida surgiu após uma aposta que a minha avó
fez com a vizinha e coube a mim ajudar a resolver

Minha avó Sebastiana, de 86 anos, me ligou uns dias atrás. Ela queria que eu a ajudasse com um desafio contra a vizinha, a Dona Judite, uma senhorinha muito simpática que mora na mesma rua, em Barra Mansa (RJ). Afinal: qual é o nome da mulher que aparece nas cédulas de real?

Eu respondi que era a efígie da República. “‘Efígie’, que nome estranho. Vou avisar a Judite”, ela me disse, e toda animada desligou o telefone. Achei engraçado porque o único objetivo daquela ligação era saber o nome da mulher da nota. Ela nem mesmo perguntou como eu estava.

A efígie

Nós vemos a cara dessa mulher todos os dias e não temos a menor ideia do que ela significa ou porque ela foi escolhida para ilustrar as nossas cédulas. No caso da minha avó, essa dúvida surgiu naquele dia e deve ter rendido acaloradas discussões enquanto ela e a dona Judite tomavam café e comiam bolo de fubá.

Mas “Efígie” não é o nome da mulher, e sim o nome que se dá pra qualquer imagem representada nas cédulas. Por exemplo, no Reino Unido, a efígie da libra esterlina é o retrato da Rainha Elizabeth 2ª (veja acima).

Já o dólar tem sete efígies, representadas por cinco ex-presidentes George Washington (US$ 1) , Thomas Jefferson (US$ 2), Abraham Lincoln (US$ 5), Andrew Jackson (US$ 20) Ulysses S. Grant (US$ 50) e outros dois americanos que não foram presidentes, o primeiro Secretário do Tesouro, Alexander Hamilton (US$ 10) e o cientista e um dos líderes da Independência dos EUA, Benjamin Franklin (US$ 100).

Leia também:

A jovem República brasileira


No Brasil, a mulher das notas de real é uma representação alegórica da República brasileira. Essa mulher —  a jovem República —  também aparece em algumas obras de arte, como essas acima. À esquerda, um quadro de 1896, exposto no Museu de Arte da Bahia, feito pelo artista Manoel Lopes Rodrigues. À direita, a República em perfil, feito por Décio Villares em 1919.

E esta mulher, sim, tem um nome. Ela se chama Marianne e foi batizada pelos revolucionários franceses que utilizaram os nomes mais comuns entre as mulheres pobres do país no século 18: Marie e Anne. A partir de então, Marianne passou a representar os valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa, que, em 1789, derrubou a monarquia absolutista e instaurou a República na França.

Ao lado do quadro dando uma de turista jeca (a foto ficou ruim, mas é a única que tenho)


O rosto de Marianne da nossa nota de real foi inspirado na obra-prima “A Liberdade Guiando o Povo”, de 1830, de autoria do artista francês Eugène Delacroix, atualmente em exposição no Museu do Louvre, em Paris. Quando fui lá, este foi um dos quadros em que fiquei mais tempo observando, tanto pela beleza estética quanto por seu significado. Até posei para uma foto, que ficou bem ruim, como dá para perceber acima. ¯\\_(ツ)_/¯

A obra mostra Marianne usando na cabeça o barrete frígio (uma touca ou carapuça). Poderosa, com os seios à mostra, ela está armada com mosquetão e baioneta em uma mão e a bandeira tricolor em outra, inspirando o povo a lutar pela liberdade. Ao lado dela, um menino empunha duas armas e marcha por cima de soldados mortos. Ao fundo, a catedral de Notre Dame.

O quadro:

“A Liberdade Guiando o Povo” (1830), de Eugène Delacroix, em exposição no Museu do Louvre, em Paris


  • “No quadro, a Liberdade parece uma deusa, uma mulher do povo. Quando ela marcha descalça por cima dos corpos, é como se usasse os inimigos como uma escada para a liberdade”.

Cédula de 100 francos de 1993 com a imagem de Delacroix e a pintura de Marianne


O quadro de Delacroix ficou tão famoso que foi reproduzido em 1993 na cédula de 100 francos, com a imagem do artista à esquerda e Marianne à direita. Não tenho certeza, mas possivelmente esta é uma das poucas notas no mundo que mostra uma mulher com os seios de fora.

Marianne é oficialmente o símbolo da república francesa, e seu busto contendo o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” está exposto em praticamente todas as repartições públicas do país. Além disso, todas as lojas maçônicas de lá também têm o busto de Marianne, onde é conhecida como “Senhora Maçonaria”.

Na França, até 1969, o busto de Marianne não era inspirado em nenhuma mulher em especial. O presidente Charles de Gaulle, no entanto, pediu para a atriz Brigitte Bardot servir de modelo para os novos bustos, que ornamentariam todas as prefeituras do país. A partir daí, a Associação de Prefeitos da França passou a escolher regularmente francesas famosas como inspiração, o que se tornou uma grande honra no país.

Além de Brigitte Bardot (1968), também já serviram de inspiração Michèle Morgan (1972), Mireille Mathieu (1978), Catherine Deneuve (1985), Inès de la Fressange (1989), Laetitia Casta (2000), Évelyne Thomas (2003) e Sophie Marceau (2012).

Busto da República inspirado em Brigitte Bardot (à esquerda) e Catherine Deneuve

Busto da República inspirado em Brigitte Bardot (à esquerda) e Catherine Deneuve (à direita)


Em Portugal

A imagem de Marianne também foi usada nas moedas portuguesas. Por lá, a República apareceu como na França, com os seios aparentes, em uma litografia de Cândido da Silva, representando os revolucionários de 1910.

Litografia de Cândido da Silva representando os revolucionários de 3 de outubro de 1910 em Portugal


Barrete Frígio

Uma curiosidade a respeito do barrete frígio (a tal touca ou carapuça). Ele tem esse nome porque foi originalmente utilizado pelos habitantes da Frígia, onde hoje fica a Turquia, e adotado pelos republicados franceses que derrubaram a Bastilha. O próprio barrete em si passou a representar a República e aparece em diversas bandeiras e brasões republicanos, como o da Argentina e também no da cidade do Rio de Janeiro.

O brasão da Argentina (à esquerda) e o brasão da cidade do Rio de Janeiro


Nas nossas moedas

A efígie da República é representada nas moedas brasileiras desde, obviamente, a proclamação da República, em 1889. Ora ela está olhando para o lado direito. Ora ela está olhando para o lado esquerdo. Em todas as ocasiões, a República está usando o barrete. Não sei explicar o motivo de ela estar olhando para lados diferentes, talvez seja só estético. Se alguém souber, me avise nos comentários.

Veja alguns exemplos:


Nas cédulas brasileiras, a primeira vez que a República apareceu foi em 1889, na nota de 500 réis. Em 1926, ela voltou a aparecer na nota de 20 mil réis. Nas cédulas de cruzeiro, ela foi surgir no reverso da nota de Cr$ 20, porém como uma estátua mitológica segurando a Constituição, e não como efígie. No caso desta cédula, a efígie é do proclamador da República e nosso primeiro presidente, o Marechal Deodoro da Fonseca.

Foi só a partir de 1970, na segunda encarnação do cruzeiro, na cédula de Cr$ 1, que a República surgiu laureada em forma de estátua greco-romana. Mas a representação como conhecemos hoje apareceu pela primeira vez somente em 1989, no cruzado novo, na cédula de NCz$ 200. Depois, esta cédula foi reaproveitada com o mesmo valor, só que com um famigerado carimbo, na terceira encarnação do cruzeiro.

Finalmente, em 1994, ela voltou definitivamente, desta vez em todas as cédulas de real, onde permanece até hoje.

Todas as vezes em que a República apareceu nas cédulas brasileiras:


Estátua da Liberdade

O quadro de Delacroix também inspirou a criação da Estátua da Liberdade, em Nova York, cujo nome oficial é “Liberdade Iluminando o Mundo”.

A estátua, um presente da França pelo centenário da Declaração da Independência dos Estados Unidos, foi projetada e construída pelo maçom Frédéric Auguste Bartholdi, baseado no Colosso de Rodes (uma das sete maravilhas do mundo antigo), com estrutura interna de aço projetada por Gustave Eiffel (o mesmo da torre parisiense) e entregue por Napoleão 3º ao presidente americano Grover Cleveland.

A estátua foi inicialmente projetada para mostrar Marianne com os seios aparentes, assim como no quadro, mas o puritanismo americano impediu e ela foi coberta com aquela manta. Na mão direita, ela segura uma tocha e na esquerda, uma tábua com a data de 4 de julho de 1776.

Embora a inspiração tenha vindo do quadro de Delacroix, o rosto da Estátua da Liberdade foi moldado de acordo com as feições da mãe de Bartholdi, Charlotte, e a silhueta do corpo foi inspirada em sua noiva.

No pedestal, está escrito “Tragam a mim os exaustos, os pobres, as massas confusas ansiando por respirar liberdade”, do poema The New Colossus, de Emma Lazarus.


“Mother Russia”

Por outro lado, se no Ocidente Marianne foi adotada como a alegoria da República, na Rússia, a personagem é outra: a “Mother Russia” ou “Mãe Rússia” —  algo como “Terra Mãe” ou “Terra Natal”. Essa imagem é tão forte e tão presente na cultura dos russos quanto a Marianne é na nossa.

Ela, literalmente, é a mãe dos russos, com o seu vasto território, capaz de proteger todos os habitantes. A imagem ganhou força após a Revolução Russa e há várias estátuas espalhadas pelo país e também nas ex-repúblicas soviéticas.

No Ocidente, a expressão “Mother Russia” foi incorporada pela cultura pop. Na música, virou título de singles do Iron Maiden e do The Sisters of Mercy.

No cinema, a Mother Russia virou uma vilã na comédia “Kick-Ass 2”, representada por uma mulher de cabelos platinados, tampão no olho e muito malhada, quase uma Gracyanne Barbosa soviética.

Para encerrar: duas curiosidades

Em 1922, o Brasil voltou a exibir a coroa do Império em suas moedas, 33 anos após a proclamação da República, para celebrar o centenário da Independência. A moeda de 500 réis trouxe, lado a lado, a coroa e o barrete frígio da República, representando as duas fases que o Brasil viveu após se libertar de Portugal.

Na mesma moeda: a coroa do império e o barrete frígio da República


Você sabia que o desenho da República na moeda de R$ 1 quase foi diferente? O governo usou a imagem da República igual ao da nota de um cruzeiro. O desenho, no entanto, foi somente um disfarce para esconder o desenho oficial da moeda, que ainda não havia sido lançado.

Veja só como teria ficado:

Ensaio não aprovado para a segunda família da moeda de R$ 1

 

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Sobre o Autor

Felipe Branco Cruz coleciona moedas e curiosidades. É jornalista com mais de 10 anos de experiência, com passagem pelos principais veículos de comunicação do país. Atualmente é repórter de entretenimento do UOL, onde escreve sobre cultura pop, música, cinema e comportamento.

Sobre o Blog

Cara ou Coroa é o blog de numismática do UOL. Por aqui você encontra reportagens e curiosidades sobre as cédulas e moedas do Brasil e do mundo.

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